CASOS ASSOMBROSOS DA FAZENDA DO ENGENHO SÃO MIGUEL:
Casos assombrosos da Fazenda do Engenho de São Miguel 1
José Antônio de Ávila Sacramento
As assombrações, pelo que dizem as pessoas que asseguram tê-las
avistado, são coisas fantásticas e que causam muito terror. Podem ser “almas do
outro mundo”, sustos causados por acontecimentos cujas causas são
aparentemente inexplicáveis. Os mais incrédulos dizem que na maioria das vezes
as assombrações são impressões ocasionadas pelas lentes de aumentos dos
nossos medos, pela falta de investigação das causas dos fatos acontecidos. Estes
casos, transmitidos pela tradição oral, são revelações sem possibilidades técnicas
ou científicas de comprovação (“son coisas que non eczistem”, diria o padre
Quevedo!)2
. Tais acontecimentos, quase sempre, são experiências individuais
(parece que as assombrações nunca aparecem para mais de uma pessoa ao
mesmo tempo!).
Nas proximidades do arraial bandeirante de São Miguel do Cajuru existiu
a antiga Fazenda do Engenho de São Miguel, a origem mais provável daquele
distrito. José de Alencar Ávila Carvalho (1925-2000) disse que para construí-la
“cortaram a base de uma elevação e naquela plataforma, estrategicamente,
esconderam a casa atrás do morro e da estrada que vinha do Cajuru”. Alencar
sabia muito bem que “os velhos tempos eram tempos de medo: andarilhos,
bandidos, ciganos, gente da Justiça Civil ou Eclesiástica. Havia sempre a
espingarda, a garrucha, o punhal de cabo de chifre bem trabalhado, a manguara, o
cabo de relho, a foicinha, mas, às vezes, não adiantava nada”, principalmente
quando havia a necessidade de se proteger de seres ou das latomias provenientes
do “outro mundo”.
Diziam que aquela fazenda era assombrada... O fato de ali ter existido
escravos pode ter facilitado a crença na aparição das assombrações. Minha avó
materna (Ana Etelvina de Ávila, 1906-1989) contava que chegou a ver, um pouco
abaixo da sede da Fazenda do Engenho, para os lados da várzea, as senzalas.
Relatou-me que conheceu os vestígios de um tronco usado para castigar os negros.
Ela disse que conheceu alguns descendentes de escravos que continuavam
prestando seus serviços voluntariamente na Fazenda, após a Abolição: “a velha
escrava Emiliana deixou saudades!”, dizia-me ela.
Meu pai, José Colombo de Ávila (1913-1990), disse-me ter ouvido contar
o caso de um escravo alforriado, já muito velho, cujo nome ou apelido era
Manqüeba. O negro tinha a fama de ser feiticeiro e por isso era um sujeito temido.
Dizem que ele era um curandeiro muito feio e tinha lá os seus “poderes”; suspeitavase
que caso uma pessoa zombasse da feiúra dele, dias depois ela poderia ser
encontrada morta, sem motivos aparentes. Quando Manqüeba faleceu, o enterro
dele seguiu da Fazenda do Engenho rumo ao cemitério do Arraial, com o corpo
conduzido num carro-de-boi. Em certa altura, nas proximidades d’uma cava
(caminho antigo, erodido pelas tropas, carros-de-bois e enxurradas), o carro estava
sendo puxado com bastante dificuldade, “cantava e saía muita fumaça dos seus
eixos”, dando a impressão de estar muito pesado e de forçar demais a junta de bois.
De repente houve um estrondo e os animais, como se tivessem sido aliviados,
causaram um agudo solavanco no carro, que pareceu ter ficado muito mais leve.
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