segunda-feira, 6 de abril de 2015

 

  CASOS ASSOMBROSOS DA FAZENDA DO ENGENHO SÃO MIGUEL:

Casos assombrosos da Fazenda do Engenho de São Miguel 1 José Antônio de Ávila Sacramento As assombrações, pelo que dizem as pessoas que asseguram tê-las avistado, são coisas fantásticas e que causam muito terror. Podem ser “almas do outro mundo”, sustos causados por acontecimentos cujas causas são aparentemente inexplicáveis. Os mais incrédulos dizem que na maioria das vezes as assombrações são impressões ocasionadas pelas lentes de aumentos dos nossos medos, pela falta de investigação das causas dos fatos acontecidos. Estes casos, transmitidos pela tradição oral, são revelações sem possibilidades técnicas ou científicas de comprovação (“son coisas que non eczistem”, diria o padre Quevedo!)2 . Tais acontecimentos, quase sempre, são experiências individuais (parece que as assombrações nunca aparecem para mais de uma pessoa ao mesmo tempo!). Nas proximidades do arraial bandeirante de São Miguel do Cajuru existiu a antiga Fazenda do Engenho de São Miguel, a origem mais provável daquele distrito. José de Alencar Ávila Carvalho (1925-2000) disse que para construí-la “cortaram a base de uma elevação e naquela plataforma, estrategicamente, esconderam a casa atrás do morro e da estrada que vinha do Cajuru”. Alencar sabia muito bem que “os velhos tempos eram tempos de medo: andarilhos, bandidos, ciganos, gente da Justiça Civil ou Eclesiástica. Havia sempre a espingarda, a garrucha, o punhal de cabo de chifre bem trabalhado, a manguara, o cabo de relho, a foicinha, mas, às vezes, não adiantava nada”, principalmente quando havia a necessidade de se proteger de seres ou das latomias provenientes do “outro mundo”. Diziam que aquela fazenda era assombrada... O fato de ali ter existido escravos pode ter facilitado a crença na aparição das assombrações. Minha avó materna (Ana Etelvina de Ávila, 1906-1989) contava que chegou a ver, um pouco abaixo da sede da Fazenda do Engenho, para os lados da várzea, as senzalas. Relatou-me que conheceu os vestígios de um tronco usado para castigar os negros. Ela disse que conheceu alguns descendentes de escravos que continuavam prestando seus serviços voluntariamente na Fazenda, após a Abolição: “a velha escrava Emiliana deixou saudades!”, dizia-me ela. Meu pai, José Colombo de Ávila (1913-1990), disse-me ter ouvido contar o caso de um escravo alforriado, já muito velho, cujo nome ou apelido era Manqüeba. O negro tinha a fama de ser feiticeiro e por isso era um sujeito temido. Dizem que ele era um curandeiro muito feio e tinha lá os seus “poderes”; suspeitavase que caso uma pessoa zombasse da feiúra dele, dias depois ela poderia ser encontrada morta, sem motivos aparentes. Quando Manqüeba faleceu, o enterro dele seguiu da Fazenda do Engenho rumo ao cemitério do Arraial, com o corpo conduzido num carro-de-boi. Em certa altura, nas proximidades d’uma cava (caminho antigo, erodido pelas tropas, carros-de-bois e enxurradas), o carro estava sendo puxado com bastante dificuldade, “cantava e saía muita fumaça dos seus eixos”, dando a impressão de estar muito pesado e de forçar demais a junta de bois. De repente houve um estrondo e os animais, como se tivessem sido aliviados, causaram um agudo solavanco no carro, que pareceu ter ficado muito mais leve. 



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